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ELO Jornal diz: "Policiais de Esquerda, eles existem!"

Pedro Chê, coordenador do Movimento Policiais Antifascismo RN, concedeu entrevista. Confira após nossa análise!


O Movimento Antifascismo está, cada vez mais, ganhando espaço na mídia brasileira. E não poderia ser diferente com o Movimento Policiais Antifascismo, um dos primeiros a gritar para todo o país: "Ei! Tem um movimento fascista crescendo neste país! Precisamos nos unir para por um fim nisso".


No dia 5 de junho de 2020, quem abriu as portas para noticiar a nossa luta foi o ELO jornal, mídia digital que noticia sobre educação, sociedade, cultura, esporte, segurança, etc.

A notícia é clara: Policiais de esquerda? Eles existem!


Sim, sempre existimos! O que faltava era nos organizarmos para lutar (de forma pacífica) por nossos ideais de esquerda. E é justamente o que Pedro Chê, coordenador do Movimento Policiais Antifascismo RN, responde nessa entrevista quando diz que o movimento pede por uma “Polícia cidadã e amiga da sociedade”.

"É um movimento em defesa da democracia e dos direitos humanos", destaca Pedro Chê.

"Diante dos acontecimentos que remetem a polícia assassinando pessoas, não é um paradoxo ser antifascista e policial?", questiona o ELO Jornal.

Pergunta dura e direta, mas muito bem respondida por Pedro:

"Há elementos e valores fascistas que, infelizmente, permeiam o imaginário policial"

A verdade é que o valor fascista está enraizado em uma parcela da sociedade. Na teoria, todo policial deveria ser antifascismo (fascismo é um crime contra a humanidade), mas, na prática, não existe um teste de fascista para entrar na instituição.

Além de seu modelo formador precisar de mudanças urgentes, nada impede que "gente ruim" entre nas forças policiais. A farda, aqui, assume um poder multiplicador de caráter.


Uma boa pessoa arriscará sua vida em um tiroteio para salvar um menino preto que entre na linha de fogo, outra "sentará o dedo" (termo usado por policiais) sem ter um pingo de pena em quem o tiro vai pegar. A desculpa sempre será "ordem dada é ordem cumprida".

Como os policiais antifascismo são vistos pela esquerda e pela direita?

A resposta de Pedro Chê é simples:

"A gente entende que a esquerda tem muitos problemas com relação à percepção da segurança pública. O que a gente tem que fazer, enquanto esquerda, é falar: cara, esse regime te oprime e faz com que seu serviço não seja adequado. Que tal a gente pegar uma perspectiva que seja melhor para você? Que tal a gente acabar com a militarização e você não ser tão açodado dentro dos batalhões?”

Essa fala representa muito! A verdade é que o Movimento Policiais Antifascismo é formado por pessoas bem diferentes, de categoriais diferentes, de culturas diferentes, de cores diferentes, de religiões diferentes, de instituições diferentes e que votam em partidos diferentes também.

É isso que faz belo o movimento. Tudo é debatido vendo todos os pontos de vista diferentes, de todos. E, desta dialética que não é estática, surgem nossas falas, nossas bandeiras, nossas temáticas que abordamos seja onde for.

A direita pode até não gostar do movimento porque sabe que vamos de encontro ao status quo que eles defendem, mas a esquerda pode ter certeza que está muito bem representada.

Por fim, quando é perguntado a Pedro se casos como a morte do menino Pedro e do americano George Floyd, se a polícia recebe um preparo adequado para lidar esses casos, a resposta é contundente:

"Ali é um despreparo que vai além da questão operacional. É um despreparo e uma certa submissão à ordem vigente. Porque aquilo não acontece na periferia. E não era para acontecer em Alphaville"

O que Pedro quer dizer é simples. A população não é ignorante. Se, no Alphaville, o policial sabe se comportar e na periferia, não, sabe que é questão de escolha, e não de treinamento.


É preciso muito mais tempo para se explicar por que é uma questão de escolha e não de puro treinamento, sem falar que nem todos os policiais fazem essa escolha pelo lado errado.


O Movimento está ai, online e também nas ruas. Já se espalhou pra outras categorias, como as torcidas antifascismo, os professores antifascismo, os youtubers antifascismo, até mesmo os entregadores de Ifood antifascismo.


Como diria Che Guevara, que é a referência de Pedro em seu nome:

"Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros".

Leia na íntegra abaixo ou acesse a entrevista publicada por ELO jornal, escrita por Valcidney Soares:


Pedro Paulo Mattos, 34, conhecido como Pedro Chê, logo entendeu que algo precisava mudar dentro do seu trabalho. Policial civil há oito anos, ele não entendia a cultura de violência que permeia a segurança pública. Historiador e estudante de direito, entrou na corporação com o sangue nos olhos: “queria prender geral”. Mas “dentro da lei”, enfatiza. No entanto, percebeu que as mazelas sociais rondavam a sociedade, e consequentemente reforçavam a criminalidade. Conheceu o Movimento Nacional Policiais Antifascismo, que pede por uma “Polícia cidadã e amiga da sociedade”, como aponta o site da organização. Hoje, é uma das vozes ativas da entidade no Rio Grande do Norte. Com os “camaradas” — policiais civis e militares estaduais e federais, bombeiros, guardas municipais e policiais penais —, encontrou seu lugar.


No meio do furacão formado recentemente pelos protestos das torcidas organizadas e embalado pelas mortes de pessoas negras, a pesquisadora Raquel Medeiros faz uma ressalva. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ela diz que “é preciso ver o papel do policial dentro do contexto mais amplo da política estatal, que tira a autonomia do profissional e o coloca na posição de um mero cumpridor de ordens. O policial deve ser visto como um trabalhador, um cidadão”, afirma.


Para a doutoranda, não se trata de isentar os policiais por possíveis erros. “A discussão deve girar em torno da estrutura que sustenta as corporações policiais, que é um Estado repressor para a maioria da população e defensor dos interesses das classes mais altas socioeconomicamente”. Segundo Medeiros, “o policial de base não participa da elaboração das políticas; ele as obedece”. “Por isso, essa ‘política de extermínio’ adotada pelo Estado deve ser combatida por toda a sociedade, inclusive pelas instituições policiais. A polícia não é um agente para o extermínio da pobreza ou de quem pensa diferente; ela deve garantir o direito de todos os cidadãos”, pontua.


Num caminho semelhante ao da pesquisadora, Pedro Chê defende o policial como trabalhador ao conversar com o Elo Jornal. Ele rechaça ainda rechaça o lema “bandido bom é bandido morto”, afirma que há valores fascistas dentro das Polícias e critica a falta de reflexão entre os agentes públicos. Mas também reclama dos gritos pelo fim da Polícia Militar —comuns em protestos de esquerda—, pela didática negativa que a frase carrega. Sobre os casos do menino João Pedro e do americano George Floyd, ambos mortos após ações policiais, diz que há “de tudo um pouco”, do despreparo ao preconceito. E reclama da visão, impregnada na população e nas polícias, de que o “inimigo” é “o jovem negro da periferia, não o cara do colarinho branco”.

Quem são os policiais antifascismo e o que vocês propõem?

Pedro Chê: É um movimento em defesa da democracia e dos direitos humanos. A gente tem pautas muito específicas, por exemplo: a desmilitarização é um ponto central pra gente, o fim da guerra às drogas e uma política antiproibicionista, em que a saúde pública se governe dessas questões. A gente também pede pela carreira única, porque aqui no Brasil a gente tem polícias em que você tem duas formas de ingresso: ou ingressa na base ou nos cargos de gestão, que cria bolhas dentro da polícia, que tanto dificultam o diálogo interno como também externo e cria uma hierarquização de classes. Isso favorece o abuso e o corporativismo e é um dos pontos que a gente luta. A gente também quer uma mudança na cultura policial, [no modo] como se pensa a polícia. A gente fala de desmilitarização e ela não é só estrutural, é também cultural. A gente não quer acabar com a polícia militar, mas acabar a ligação dela com o Exército e com o regime jurídico-militar. E, dessa forma, propiciar com que outras polícias deixem de beber dessa fonte. Você poderia me dizer: “a polícia militar é só uma, as outras são civis”. Não é assim que funciona exatamente, porque a polícia militar é a grande produtora de cultura policial, e ela irradia isso para as outras. E aí acaba que a polícia civil, guarda municipal, polícia federal, polícia rodoviária federal, de alguma forma bebem dessa cultura produzida lá e que a gente entende que é ineficiente. Ela não é só incompatível com o mundo civil, mas também é ineficiente no trato da segurança pública.

Devido, especialmente, a casos recentes, ser policial e ser antifascista são vistos praticamente como antônimos. Como você encara essa visão?


Pedro Chê: Como um problema de percepção. Nossas funções, como a defesa da integridade, dos direitos humanos, deveriam ser valores assumidos de maneira inquestionável. Direitos de todos, não de alguns selecionados. Mas infelizmente não é o que acontece. Por exemplo, os direitos humanos são mal quistos, e é expressado inclusive por policiais. Dizem que são direitos humanos de bandidos, o que é uma deturpação terrível. Direitos humanos são para todos, inclusive para os bandidos, para as vítimas e os policiais. E o antifascismo é uma mensagem ainda mais forte, porque não apenas reclama, mas também denuncia. Denuncia que há elementos e valores fascistas que infelizmente permeiam o imaginário policial. Então se os direitos humanos já são mal quistos, com relação ao antifascismo fica ainda pior.  


Querendo ou não a Polícia é um aparelho do estado, e como aparelho do estado é acionada para reprimir manifestações e manter a ordem. Nisso, acabam ocorrendo frequentemente confrontos em protestos de sindicatos, trabalhadores etc. É possível conciliar a militância e o trabalho?


Pedro Chê: Você pensa que a resposta é complexa, mas é bem simples: ler! O que a gente advoga é que ambos os lados cumpram com suas partes. E isso às vezes parece que não é fácil. No meu local de fala, enquanto policial, há uma perspectiva que vem desde as formações, de que certas figuras são inimigas, e uma dessas figuras são os manifestantes, as pessoas de esquerda. Até porque o policial normalmente tem uma mentalidade conservadora, e externa isso. Isso é de um antiprofissionalismo terrível. É vedado ao bom policial ir com qualquer preconcepção a respeito do movimento que vai acontecer. Seja pró-Sérgio Moro, seja pró-Bolsonaro, seja pró-Lula, pró-PSOL. Ele deveria ir lá, e a gente pede isso, que vá lá como profissional. Então, ele vai ter que zelar por algumas questões, e que zele de acordo com a proporcionalidade do que se tem. Que não seja mais um agente instigador. O que não é incomum ter, em manifestações, policial fazendo a segurança e fazendo isso aqui [faz o sinal de arma com as mãos], com a cara fechada para os manifestantes. Isso passa certos recados. Agora é claro, a gente tem o local de fala e o local de trabalho. A gente também pede aos manifestantes que mantenham a ordem. Mas, caso essa ordem não seja cumprida, que se caso a polícia for atuar, que entre dentro do aspecto legal. A proporcionalidade da força é uma palavra muito cara nesse momento. Quando se é necessária a intervenção policial, ela não é libertina, tem parâmetros, e eles conhecem os parâmetros. Mas muitas vezes esses parâmetros não são cumpridos. Veja, o caso da mulher de São Paulo com o bastão [taco de beisebol], aquilo por incrível que pareça é parâmetro. Mas eu faço a pergunta que todos fazem: ‘para os dois lados funciona desse jeito?’ Tem que funcionar!

Como os policiais antifascistas são vistos pela esquerda e pela direita?


Pedro Chê: Aqui no Rio Grande do Norte a gente é bem visto. A gente conseguiu uma militância bem expressiva, pôde ter a oportunidade de fala. Porque isso é muito caro, para os caras entenderem o que a gente tem de diálogo. Mas a gente entende que a esquerda tem muitos problemas com relação à percepção da segurança pública. E eu não estou sendo corporativo, estou sendo técnico. Por exemplo: a galera pede pelo fim da polícia militar. Não que eu tenha qualquer relação contrária a isso. Mas veja, por princípio, isso tem alguns erros. Primeiro, deveria ser pedindo desmilitarização. Segundo, querendo ou não, o policial militar é um trabalhador e tem uma relação de afeto com a profissão, como cada um tem. O professor gosta de lecionar, tem uma relação com sua escola e seus alunos. O cobrador de ônibus tem uma relação com o ônibus e outros trabalhadores do transporte rodoviário. O policial militar tem também uma relação com a sua farda, com sua perspectiva militar. E quando você fala “eu quero o fim da Polícia Militar’”, você está quase dizendo: “tudo o que tem aí não presta para nada, inclusive você [o policial]”. Então não é uma abordagem receptiva. O que a gente tem que fazer, enquanto esquerda, é falar: “cara, esse regime te oprime e faz com que seu serviço não seja adequado. Que tal a gente pegar uma perspectiva que seja melhor para você? Que tal a gente acabar com a militarização e você não ser tão açodado dentro dos batalhões?”


Qual o tamanho do movimento hoje dentro das Polícias? É possível pautar, dentro da corporação, uma política menos violenta?


Pedro Chê: A ideia é que a gente vá sempre ser minoria, nessa realidade posta. Nós somos o que eles chamam de cavalo de troia. E a gente tem um local de fala importantíssimo dentro das instituições, mesmo que com raiva. Veja, quando acontece qualquer coisa dentro das polícias, eles perguntam o quê que o os “malditos dos policiais antifascismo vão falar”. Então a gente já tem um espaço político dentro, por mais que seja visto dessa forma negativa. Nossas pautas são conhecidas por eles, e eles tem que discutir isso mesmo que seja para xingar. E a gente entende que é uma evolução. Tem colegas que são mais apressados e falam: “que evolução?”. Como não, cara? Se antes a gente tinha um absolutismo da percepção de bandido bom é bandido morto, e a gente conseguiu quebrar, é evolução. Não precisamos pular de um estágio de completa inanição para ser maioria. A gente já quebrou o monopólio do bandido bom é bandido morto. E vamos tentar progredir em outros assuntos.


Alguns casos recentes trouxeram atenção novamente ao papel da polícia contra a negritude. No Rio, João Pedro, de 14 anos, teve a casa alvejada mais de 70 vezes e foi morto durante uma operação das polícias Federal e Civil. Nos EUA, George Floyd faleceu depois de ser asfixiado por um policial branco. Você enxerga essas situações como despreparo ou preconceito? A polícia recebe um preparo adequado para lidar esses casos?


Pedro Chê: De tudo um pouco. Você tem a questão do preconceito, do racismo estrutural, que está dentro das instituições e a polícia não está fora disso. E na polícia a coisa ainda fica pior, porque como é uma cultura militarizada, tem a perspectiva do inimigo. O inimigo quem é? O infrator. O infrator, para a concepção geral da população, é aquele jovem, negro, de periferia. Não é o cara do colarinho branco. Até porque o policial raramente tem acesso ao cara do colarinho branco por uma simples razão: é muito difícil chegar a ele. Teria que ter uma estrutura voltada para chegar a ele, e a estrutura é voltada para o cara que faz aviãozinho, que faz o pequeno tráfico e pequenos furtos na periferia.


Tanto que teve o policial que foi humilhado por um morador de Alphaville [condomínio de luxo de São Paulo].

Pedro Chê: Ali é um despreparo que vai além da questão operacional. É um despreparo e uma certa submissão à ordem vigente. Porque aquilo não acontece na periferia. E não era para acontecer em Alphaville. Com a conduta daquele cidadão, o policial era para ter tomado outras providências. Ele é um agente público. Não é que ele tem que se revestir de autoritarismo e de uma capa de super-homem. Mas havia uma perspectiva de um ilícito acontecendo ali, e o cidadão estava vociferando de uma forma que já cabia ser enquadrado penalmente. Então não faz mal reter e levar à delegacia. Mas é um outro despreparo que vem da submissão. Porque no militarismo o cara é acostumado a abaixar a cabeça. E ele leva esse mesmo enquadramento para a rua. Ele pode ver, pode exemplo, um cidadão comum como subalterno. Como ele também pode ver um cidadão com certa condição social como superior e ter medo. Fora que vem a questão moral, em que o policial não é incentivado a ter uma reflexão. É um robô muitas vezes. São muitos os pontos que levam ao que acontece nos Estados Unidos, e não vamos esquecer: o racismo estrutural ganha contornos diferentes dentro da polícia. O caso do João Pedro é isso, do George Floyd é isso.

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