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Série "Antifa com Orgulho" estreia com Pedro Chê

Atualizado: Jul 21

Conheça um pouco mais da vida de policiais antifascismo que vestem a camisa e lutam por justiça e paz



O Blog do Movimento Policiais Antifascismo inicia a série "Antifa com Orgulho" com Pedro Chê, policial civil em Natal, Rio Grande do Norte, e coordenador do Movimento Policiais Antifascismo RN.


Aos 34 anos, Pedro nasceu na Paraíba, foi registrado em Pernambuco e se considera potiguar, por estar radicado em Natal desde muito novo. Confira a entrevista!



Blog do MPA: Quem é Pedro Chê?


Pedro Chê: Penso em Belchior: “sou apenas um rapaz latino americano”. Talvez tenha sido a primeira coisa que pensei, por achar nele um espírito muito parecido ao meu. Nasci em 1986, sou meio paraibano, meio pernambucano, mas onde me sinto em casa é no Rio Grande do Norte. Filho de dois pais dedicados, pai de uma menina que tem uma personalidade poderosa, casado com uma mulher a quem tenho que ser muito grato pelas lições de simplicidade e verdade que me passa. Quanto a quem sou na rua, sou formado em História pela UFPB, Policial Civil desde 2012 anos, tendo passado por muitos lugares, o que achei proveitoso, principalmente quanto a minha estadia na Delegacia de Homicídios. Estou aluno do Direito na UERN, adoraria fazer mestrado – mas não tenho tempo neste momento – e sou Coordenador do Movimento de Policiais Antifascismo no RN, o que é um orgulho tremendo e o que me inviabiliza de ser qualquer outra coisa (risos), por causa do quanto tempo que preciso me dedicar.


Por que Pedro Chê? O que motivou o uso do codinome Chê?


É uma história do curso de formação para a Polícia Civil. Embora fui um aluno que cumprira com todas as suas obrigações, não me interessava por algumas aulas que não eram muito bem ministradas, e nestas eu lia. Estava lendo na época Crime e Castigo, de Dostoievski (recomendo muito!), e tinha capa vermelha bem chamativa. Meus amigos de curso eram principalmente os ex-PMs que estavam migrando para a Polícia Civil, e acho que eles me olhavam por isso como “desordeiro” (risos), e ainda mais um livro vermelho? Aliado a tudo isso, eu na época tinha uma barba muito grande e sempre deixei muito evidentes as minhas convicções. Então, carinhosamente, fiquei sendo chamado por eles de “Chê”. Na Polícia, 99 em cada 100 policiais me chamam de Chê. Por muito tempo meu nome de batismo no Rio Grande do Norte foi quase dispensável.


Como você se define ideologicamente?


Como um inconformado com a miséria e a indignidade, e quando presencio, isso tem a capacidade de acabar com o meu dia, fico revoltado como socialmente isso é visto como natural, isso é um crime! Mas como acho que a pergunta se destinou as escolas econômicas, vou dar uma resposta que talvez seja vista como incompleta. Tenho aderência a princípios gerais que norteiam tanto o comunismo, como o Estado de Bem-Estar Social (que entendo como pensamento de direita). Acho muito interessante e necessário que exista os que sigam doutrinariamente uma das linhas de esquerda, especialmente aquelas que se traduzam numa total subversão da ordem capitalista, mas, e ai entra o Pedro militante, se eu a partir dessa minha simpatia atuasse de forma estrita nesse sentido, penso que problemas na construção do que estamos fazendo. Sei bem que reformas tem alcance limitado, que revoluções sim tem o fito de extinguir certos processos, mas não posso hoje fechar os olhos a quase 80 mil mortos no Brasil (dado de 19/07/2020), o extermínio da juventude negra e não reconhecer que há instrumentos da própria democracia burguesa que podem reduzir isso, mudar essa realidade de patamar. Há uma miséria social que precisa agora ser enfrentada, as pessoas estão morrendo, de fome ou de bala, e fiz a escolha de atuar, de tentar ajudar agora, inclusive com o uso de ferramentas imperfeitas, entendo que a necessidade fale mais alto do que pretensões, por melhores que elas sejam.


Quais são as bandeiras que você defende?


Uma polícia democrática, amiga e servente do povo (mesmo considerando que há limitações de ordem ideológica, eu não nego). E isso se daria por meio da Desmilitarização, fim das castas e instituição da Carreira Única, Ciclo-Completo para todas as Polícias, Fim da Política de Guerra as Drogas e Liberação/Regulamentação tendo a participação Estatal e um centralismo na Saúde Pública dessas questões.


Como você narraria os grandes fatos da sua vida?


Sempre fui muito discreto com a minha vida, mas dentro do que sinto confortável para falar. Eu tenho uma questão que sempre tento trabalhar em mim. Procuro sempre tanto o que é justo, imparcial, que me coloco dentro disso, e tenho dificuldades de aceitar para mim os elogios que me são feitos, acho que não os mereço, bem simples assim. Retomo isso, por que me lembro quando passei no Curso de História, e minha mãe super orgulhosa veio me parabenizar, fiquei feliz pela felicidade dela, mas ao mesmo tempo preso ao pensamento de que não fiz nada demais, se não corresponder ao investimento deles comigo, era minha obrigação, somente. Lembro também, numa festa do Sindicato, eu tinha acabado de me tornar Diretor do Sindicato, e muitas pessoas me procuraram na companhia dos meus pais, para falar que deveriam ter orgulho do filho deles, tecendo vários elogios, vi meus pais felizes, mas fiquei constrangido por todos os momentos em que não fui bom filho, que bom que eles puderam ficar felizes e orgulhosos de mim naquele momento. Teria outros, mas acrescentaria por fim assistir o crescimento da minha filha, reputo que ela se tornará um ser humano tão expressivo por suas qualidades, o que me faz buscar melhorar para quando ela passar a ter uma ciência mais completa do que a envolve, ela ter motivos para comemorar ser minha filha e isso a estimular a ser uma pessoa melhor e uma pessoa que busque sua felicidade


Como seria o mundo ideal?
Um mundo sem miséria, indignidade e solidão (sob a ideia que a felicidade está no convívio entre as pessoas e afastar assim o egoísmo), só isso.

Como seria Pedro Chê ideal? Quais aspectos estão sendo trabalhados em sua vida?


Freud dá a lição que a gente não tem melhor alternativa do que nos amarmos, até por que não adianta nos odiarmos. Mas longe, bem longe de ser licencioso comigo mesmo. Já falei quanto a não receber como deveria os elogios. Tenho que ter cuidado para não incorrer no erro de me dedicar demais as lutas, e esquecer aquelas pessoas que precisam da minha atenção, carinho. Embora, me sinta confortável em dar entrevistas, participar de seminários (adoro), mas discurso ainda é algo que me vejo tímido, e seria com certeza algo a melhorar. Talvez devesse ouvir mais a minha esposa, para saber de outras coisas que deveria melhorar, ela com certeza tem uma lista de três páginas (risos).


De quais fontes você bebe?


Livros, Artigos, me imponho muito a ler, embora não dou conta da minha demanda. Tenho livros para 4 vidas. Mas surgiu para mim uma nova fonte nesses últimos dois anos, a troca de experiências. A militância pelo movimento me fez ter acesso a outras lutas e debates que antes tinha de maneira muito superficial e que mudaram em pouco tempo de forma dramática certos entendimentos, para dar um exemplo, uma palestra que vi do Sidarta Ribeiro sobre o uso medicinal da maconha e o quanto é ilógica a guerra as drogas, acho que esse é o melhor exemplo dessa nova fonte de aprendizado.


Quais foram suas referências pessoais, políticas e ideológicas?


Desde os 7 ou 8 anos acompanho política, e por isso não tenho como correr do fato de que durante muitos anos minha fonte principal e referência foi e é o meu pai. Brizolista, inconformado com a miséria, e pior ainda, com a normalidade que se quer atribuir a ela. Ele e sua visão do Brizola me deram isso. Aposto que acham que falarei dos grandes historiadores, mas não era um aluno de linha muito habitual, eu preferia ler Antropólogos, Cientistas Políticos, Filósofos, sempre fui adepto de uma leitura de certa forma até descompromissada. Eu gosto de gostar do que de leio e tenho muitos problemas com leituras obrigatórias, e por isso que inclusive preferi investir em concursos para carreiras policias do que burocráticas de tribunais, para mim a leitura é algo perto do sagrado, embora longe de ler como deveria e tive oportunidade. Quanto as fontes, de forma mais direta, Darcy Ribeiro, Fidel Castro. E no campo da Segurança Pública, há o Ricardo Balestreri, excelente, mas gostaria de fazer uma menção para lá de especial ao Prof. Luiz Eduardo Soares.


Como é ser policial?


Ser policial civil, ou o que deveria ser um policial civil, é a melhor profissão do mundo para mim. Nos momentos em que tive a liberdade/atribuições de atuar como investigador, não vejo nada melhor, talvez só lecionar para uma turma envolvida com a temática pudesse ser comparado, mas veja, essa última é um plano ideia, enquanto o que preciso enquanto policial é apenas do que deveria ser racional. Mas falando de como penso que isso vai para fora, ser policial é ser uma salva-guarda, um apoio, um amigo, um justo, mesmo com os injustos. É ser um promotor do bem coletivo, sem olhar a cara, cor, local, e tendo sempre o cuidado, para enquanto cidadão, por que policial também cidadão, ser uma voz ativa naquilo que perceba em seu trabalho como sendo um abuso por parte do Estado que está vinculado, tendo assim empatia mais com seus colegas cidadãos (não policiais), do que propriamente com sua vinculação estatal. As pessoas são mais importantes, e isso não deve ser esquecido.


Como seria a polícia ideal?


Uma polícia que dê o retorno, que não é solução dos problemas, mas que está ali a auxiliar. É uma polícia com policiais mais autônomos, e, portanto, com maiores responsabilidades e responsabilização. É uma polícia democrática, sem castas, sem elites, onde a cultura não seja a do corporativismo, que é um câncer onde quer que esteja instalado. É uma polícia que não vê cara, cor, bairro, que tenha a mesma energia e empatia em todos os espaços. É uma polícia que não adoeça tanto os seus policiais, que busque a dignidade e felicidade dos seus membros. É uma polícia que rechace a barbárie como procedimento. É uma polícia que seja respeitada, e não temida.


Um conselho de Pedro Chê seria...


Embora o medo seja necessário, tenha cuidado com ele, pois pode te fazer cair no egoísmo e no oportunismo. Tenha controle, jugue antes de se deixar levar. Já vi muita deslealdade por causa desse sentimento.


Uma frase marcante?


Não há tempo para ter medo. Essa é do Chê original (risos)


Fique à vontade para expressar o que desejar.


Sou mais um, mas podem contar comigo. Prometo que pelo menos irei tentar.

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